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Flores de maio

Artigo de opinião da Presidente do Politécnico do Porto.


Maio é o mês de José Mariano Gago, o "maio maduro" que Zeca Afonso cantou como força telúrica que brota da terra depois do anúncio de abril. Em maio não há madrugadas claras; são solares as manhãs e os dias alongam-se em tardes que se espraiam em poentes sem fim.

Em maio as pessoas invadem as ruas, as margens longas dos rios. É o mês dos operários e das palavras firmes como espadas, o mês das mães que geram a substância da vida com que se constrói o tempo e a história; o mês de Mariano Gago.

"No país que agora somos" estão as flores de maio que plantou: as competências disseminadas no sistema de saúde, na educação, nas fábricas e empresas..., pela abertura e modernização do sistema de Ensino Superior (um em cada três cidadãos com 20 anos passou a frequentar o Ensino Superior), pela promoção da ciência e da cultura como armas de combate à ignorância, ao isolamento do país no Mundo e à exclusão social. Como o enunciava em 1997, "o ideal de uma sociedade de informação afirma-se concretamente nas escolhas que decidimos ter a coragem de assumir como coletivo humano. (...)Não se trata de um desafio técnico, mas eminentemente político e social. Não se trata de utensílios, mas de valores" (JMG, in Livro Verde para a Sociedade de Informação).

São estas as palavras que fazem um futuro com sentido, humano, que lavram a terra onde germina a vida, as palavras firmes como espadas que não podemos esquecer.

Tomamos hoje por "essenciais e básicos" enunciados vistos como utópicos no tenro abril dos anos 80/90, que, como bem refletem Manuel Heitor e Fernanda Rolo, se instalaram como "direitos e reconhecidas qualidades intrínsecas a uma sociedade, a um país, livre e democrático com ambições no plano económico e social, cultural e científico. (...) Mas ainda estamos longe de considerar os enunciados de outrora uma realidade adquirida (...) de poder constatar a sua irreversibilidade e até a sua irrevogabilidade" (in www.marianogago.org, Ciência Viva, maio de 2016).

Hoje, quando a Europa treme, a austeridade cega invade os corredores mais estreitos do quotidiano, temos de convocar a liberdade de um projeto de desenvolvimento coletivo que garanta mais conhecimento e a sua apropriação económica e social e "não ceder à tentação da nossa eterna pequenez" (JMG).

Porque não bastam intenções; são necessárias reformas estruturantes que conduzam a um caminho sustentável, assertivo, de atualização da mudança. Maio é crer e agir.

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Autor

miguel.carvalho@sc.ipp.pt

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