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Se fosse eu?

Artigo de opinião da Presidente do Politécnico do Porto.


"O que acontece aos sírios mais vulneráveis quando a noite cai?". "E se a guerra da Síria fosse em Londres?".

Slogans concretos de uma campanha que chegou às escolas e, pela voz das crianças, talvez toque o abismo interior do medo que se abriga no silêncio e na ignorância.

Cerca de 1,3 milhões de refugiados aguardam resposta ao pedido de asilo. Destes, 51 mil estão na Grécia. Desde 20 de março, altura em que a União Europeia assinou com a Turquia um acordo, mais de 5600 chegaram à ilha grega de Lesbos, onde o posto de registo passou a ser um centro de detenção e a esperança ilusória deu lugar ao desespero.

O acordo entre a UE e a Turquia pretende "pôr fim à migração irregular para a Europa" através da "troca" de refugiados: os migrantes, independentemente da sua origem, são deportados para a Turquia, para serem repatriados, e a UE acolhe um refugiado sírio "legítimo" de entre os 2,7 milhões que vivem nos campos turcos. O que ganha a Turquia? Cerca de 9 mil milhões de euros, a abertura política de Bruxelas à participação no espaço Schengen e a aceleração do seu processo de adesão à UE. O que ganha a UE? Finge que resolve um problema que há 18 meses expõe, como uma chaga aberta, a disfuncionalidade do mais fundo da sua identidade política.

Revivo a lucidez de Merkel, a chanceler que veio de leste - que não ia fechar a porta aos refugiados porque essa não era a Europa que desejava - e a sua atual incapacidade declarada num acordo insano. A Bulgária, a Albânia, outros serão, seguramente, novos corredores de clandestinos, com o encerramento "oficial" da rota dos Balcãs e do Egeu. Os traficantes conhecem as falhas do sistema, a forma de subornar corruptos e penetrar muros, a troco das moedas da casa vendida lá longe.

Assustam o número dos refugiados muçulmanos que nos batem à porta? Integram hoje a Europa 25 milhões de cidadãos de origem muçulmana; o Islão é uma religião europeia e a Europa nunca foi um continente homogéneo e fechado.

Mas também não basta dizer que o Islão é uma religião de paz. Há trabalho por fazer.

No Norte do Iraque, onde a morte é diária, há uma luz pequena acesa. Na região curda de Erbil estuda-se o Corão, clarificam-se os versículos e desmontam-se as distorções manipuladoras que justificam atos injustificáveis; os imãs extremistas e os livros religiosos que incentivam ódios foram banidos das mesquitas; nas escolas, nas prisões, essa pequena chama traça o fio ténue da paz.

Link para o JN 

Autor

miguel.carvalho@sc.ipp.pt

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