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Os inimigos internos da democracia

Presidência

Artigo de opinião da Presidente do Politécnico do Porto.


Os principais inimigos da democracia não são os ataques terroristas, a violência exercida por grupos ou indivíduos maléficos, as atitudes repressivas feitas por cargas policiais, ou vandalismo protagonizado por turbas de fanáticos. Este tipo de manifestações reais e visíveis que nos afetam, provocando esse fenómeno terrível do medo e do fechamento aos outros, são lesivas do bem-estar e da convivência pacífica, mas não agridem nem destroem, diretamente, os valores e a organização do sistema democrático. Muitas vezes, a revolta e o repúdio que provocam reforçam e exaltam o próprio sistema e as crenças culturais e sociais onde alicerça. A história e a vida quotidiana das sociedades abertas estão cheias de situações como estas, patentes, por exemplo, na forma como as populações se mobilizam e publicamente se manifestam nos pós-ataques terroristas de Paris, Londres, ou na contestação social a fenómenos de bullying.

Mais do que a violência objetiva, concreta e brutal, há outro tipo de violência de maior efeito corrosivo sobre a democracia: uma agressão subtil, que penetra os poros das sociedades democráticas, lavrando de forma insidiosa sobre os pequenos ressabiamentos, a ignorância, ou o descontentamento.

Nas últimas semanas, assistimos ao descalabro deste tipo de violência que identifico com o que Daniel Innerarity (2015) chama "desordem emocional populista". É algo que não é só nosso: penetra de forma subterrânea as avenidas da "opinião pública", "o sentimento do povo", na Europa, nos EUA, no Brasil,..., usando a abertura dos sistemas de comunicação (média, Internet) para se expandir velozmente.

O seu principal alvo são os "políticos" — uma classe homogénea ("são todos iguais, todos corruptos") — e, logo, o próprio sistema democrático e suas instituições. Manchetes de jornais, aberturas televisivas, coberturas em tempo real de buscas sobre processos que deviam estar em segredo de justiça, incendeiam as redes sociais numa paixão justiceira, num vedetismo efémero onde as emoções são exaltadas sem pudor, rigor de provas ou moral.

Os sistemas democráticos, fundados no direito de participação e na liberdade de expressão, são frágeis, porque abertos, em exposição permanente à crítica, à dissonância e ao conflito. E essa fragilidade é a sua principal força regeneradora: a base racional onde se funda a justiça, o direito, a democracia.

Os inimigos internos da democracia estão em nós. Não atiremos fora o bebé juntamente com a água do banho. Os sistemas democráticos, fundados no direito de participação e na liberdade de expressão, são frágeis, porque abertos, em exposição permanente à crítica, à dissonância e ao conflito. E essa fragilidade é a sua principal força regeneradora: a base racional onde se funda a justiça, o direito, a democracia.


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Autor

miguel.carvalho@sc.ipp.pt

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