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O último alerta

Presidência

Artigo de opinião da Presidente do Politécnico do Porto.


Não foram centenas, mas 15 mil cientistas de 180 países que, unidos numa ação conjunta, enquanto decorria em Berlim mais uma conferência da ONU sobre o ambiente, lançaram um grito de alerta à humanidade, através de um comunicado publicado, no dia 13 deste mês, na BioScience.

A tese é simples e cansada: estão em curso na Terra "alterações substanciais e irreversíveis" que põem em causa a sustentabilidade do planeta.

Em 1992, o mesmo apelo tinha sido feito. Mas o eco foi nulo. Sucederam-se muitas conferências, muitos acordos e artigos. Mas depois do primeiro arrepio, tudo cai no esquecimento como coisa longínqua cujos efeitos não tocamos. Mas, a realidade é brutal e não se cala.

Entre 1992 e 2017, delapidamos recursos vitais limitados como a água (reduzimos 26% a quantidade de água doce per capita), desbastamos grandes áreas de floresta (menos 121 milhões de hectares), prosseguimos na poluição dos oceanos (mais 75% de zonas mortas); utilizamos excessivamente combustíveis fósseis, lançando na atmosfera cada vez mais milhões de gigatoneladas de dióxido de carbono por ano; e para alimentar uma população exponencialmente crescente (mais 35% na população humana), aumentamos o número de ruminantes que produzem enormes quantidades de metano e o consumo absurdo de recursos naturais: para se produzir um só quilo de carne de vaca são precisos cerca de 15 mil litros de água potável, ou seja, 620 duches de cinco minutos.

Em Portugal, não há tsunamis, nem furações como os que devastaram as Caraíbas. Não somos um país-ilha a naufragar no oceano como Kiribati, um pobre e pequeno país do Pacífico, onde a erosão da costa está a destruir todas as suas ilhas. Mas é impossível negar a correlação científica entre a seca que nos devassa, os fogos arrasadores, e as alterações climáticas; entre a contaminação de todas as massas de água e o uso intensivo de pesticidas e agrotóxicos na agricultura, afetando os solos, segundo a Agência Portuguesa do Ambiente.

O nosso modelo de desenvolvimento é irracional e cruel, como lembra o Papa Francisco. O consumismo excessivo não é compatível com um único planeta Terra. E os pobres - países, territórios ou pessoas - são sempre as primeiras vítimas.

Segundo o relatório do Credit Suisse, desde a crise de 2007/8, o Mundo está 27% mais rico e mais desigual: metade da riqueza mundial está concentrada em 1% da população. Na base da pirâmide estão 3,5 mil milhões, ainda mais pobres, com 2,7% da riqueza mundial.

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Autor

miguel.carvalho@sc.ipp.pt

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