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Mulher - uma condição

Presidência

Artigo de opinião da Presidente do Politécnico do Porto.


"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher", é a frase lapidar com que Simone de Beauvoir, em 1949, colocava a tese da condição feminina no centro do debate sobre o poder e a igualdade.

A questão permanece viva numa sociedade onde as diferenças entre homens e mulheres, moldadas a partir das distinções biológicas, inflamadas na ignorância e no preconceito, enformam uma visão social que produz e alimenta fortes assimetrias.

São diferentes homens e mulheres? Seguramente. Mas estas diferenças não podem ser cristalizadas em torno dos limites biológicos e dos papéis sociais "naturais" de cada um dos sexos, ignorando todo o contexto histórico e social da construção do "feminino" e do "masculino". E este é o sentido radical da frase de Simone de Beauvoir.

Não penso que as questões de igualdade de género possam ser colocadas como uma luta entre dois lados da barricada. Pelo contrário. Acredito que só nos libertaremos se, todos juntos, na compreensão e respeito pelas diferenças individuais que ultrapassam qualquer noção sexista. Não há lugar a uma visão de duas classes homogéneas em conflito, que ignora a diversidade das diferentes condições (feminino e masculino) como a classe social, a geração, etc. Importa, sim, a análise compreensiva das condições sociais onde as relações de género se inserem e, a par com outros "sistemas de desigualdade" (como a pobreza), constroem situações de subordinação ou domínio na esfera pública ou privada.

E a realidade que configura a condição de mulher é dura. Segundo dados recentes do Instituto Europeu para a Igualdade de Género (UE a 27), a equidade entre homens e mulheres atinge apenas 54 pontos em 100 possíveis. Sem surpresa, é nas áreas do poder (38) e do tempo (38,8) - a sua distribuição e utilização - que as diferenças mais crescem. "As mulheres estão muito sub-representadas nas posições-chave de poder" na administração privada ou pública. Conjuntamente, o tempo ocupado nas tarefas domésticas afasta-as do lazer, da cultura, do investimento em si e no trabalho.

Portugal é o sexto país da UE com maior desigualdade (41,3). Na distribuição do tempo livre registamos os piores resultados, com uma igualdade de 22,4 (as mulheres assumem 80% das tarefas domésticas, os homens 20%).

Há outros números: os da violência doméstica, os das diferenças salariais, da violência no namoro... Todos nascem numa história pessoal recriada sobre um tema comum: a condição feminina no século XXI.

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Autor

miguel.carvalho@sc.ipp.pt

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