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Esquecer

Presidência

Artigo de opinião da Presidente do Politécnico do Porto.


Esquecer faz parte do recordar. Na narrativa permanente de nós mesmos, reorganizamos a experiência vivida, efabulamos o caminho, conferindo-lhe o sentido futuro do que queremos ser ou do que queremos apresentar.

Esquecer é um alívio, tantas vezes condição de sobrevivência. Mas esquecer é também abandonar, pôr na borda o que nos incomoda, negar a sua existência inoportuna ou percebida como irresolúvel.

Se a construção subjetiva de cada um passa por este gume, o pulsar coletivo, corporizado na denominada "opinião pública", constrói-se, por excelência, na manipulação e negação do real. Mas os factos, na sua rudeza bruta, estão lá, resistindo aquém dos desvios de interpretação, como uma ameaça incontida que se alimenta e cresce no vazio que fica depois do esquecimento.

Segundo o ultimo relatório da UNICEF, datado desta semana, existem atualmente cerca de 50 milhões de crianças desenraizadas. Destas, 45%, segundo o ACNUR, vieram da Síria e do Afeganistão, fugindo da guerra, da miséria e do tráfico, produtos sujos das guerras que patrocinamos. Depois da morte de Aylan ter comovido, num soluço breve e leve, as redes sociais e os média, 423 crianças morreram afogadas na travessia do mar que nos separa (3100 pessoas no total).

Em Calais, na "Selva", há 400 crianças que vivem sozinhas entre quase 10 mil refugiados, cujo número diariamente engrossa 8 dezenas. Os camionistas e agricultores da região, que todos os dias tropeçam nesta realidade dizem, em protesto, que "isto vai acabar mal". E vai, seguramente.

A um mundo que se precipita em novos desafios sociais, a Europa responde com muros. 2,2 milhões erguerão em Calais um muro de 1 km por 4 m e altura, em sintonia com a Hungria, Macedónia, Áustria, Noruega.

O problema não desaparecerá com muros. A realidade não deixa de existir porque a ignoramos. Se as portas a oeste estão limitadas crescem os corredores líquidos da morte a partir da Líbia ou de Marrocos, ou outros. A Selva ou Selvas replicam-se como metástases.

Valores como os 9 mil milhões que a EU negociou com a Turquia para servir de tampão aos migrantes não poderiam ter um uso mais eficaz e feliz? Mas não é económico o problema. É político: nas causas, no desumano abandono do presente e seguramente nas consequências.

Não ver isto como o desafio que determinará o destino da Europa é não ver nada.

Esquecer também é morrer.

Depois da morte de Aylan ter comovido, num soluço breve e leve, as redes sociais e os média, 423 crianças morreram afogadas na travessia do mar que nos separa…

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Autor

miguel.carvalho@sc.ipp.pt

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