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Caixa negra - o sistema

Artigo de opinião da Presidente do Politécnico do Porto.


O sistema é essa palavra vaga, mas total, onde tudo se insere e legitima quando é necessário justificar o que escapa à compreensão racional da ordem democrática. O sistema é difuso e omnipresente como o poder. Quando interrogado, o sistema surge como máquina divina cujo alcance, de tão vasto e complexo, os mortais não podem pretender dominar e assim emerge o tapete grande para onde pode ser varrido todo o lixo, quando a transparência, própria de uma decisão política fundamentada, deixa de existir.

Os offshore são o ponto exacerbado da caixa negra do sistema; digamos mesmo, o centro motor, ou coração que irriga o sangue que o alimenta: o dinheiro. A sua configuração é o paradigma do próprio sistema: as margens de legalidade consentida fundem-se com a ilegalidade e o dinheiro limpo ou recém-lavado ajuda a branquear o sujo de modo que tudo se neutraliza no balde sem fundo do aparelho financeiro, anónimo e global.

Já tudo se disse sobre o funcionamento imoral destes paraísos ocultos, sobre o modo cruel como o grosso dos fundos de investimento financeiro (responsáveis pela crise de 2008 e outras sucessivas) operam, num roubo descarado a quem trabalha e paga impostos, com os quais se pagam os juros dos empréstimos contraídos pelo países desprotegidos, na imoralidade dos mercados e no modo como decidem e controlam o fluxo de bens e com eles a economia ao arrepio do desenvolvimento de povos e estados.

A caixa negra espreita nas revelações dos gases poluentes da indústria automóvel (com mais uma "descoberta" esta semana), no tráfego de armas, de drogas, de pessoas, no uso de recursos comuns do planeta para fins mesquinhos. Mas também lavra nas margens permissivas das leis e tratados que nos governam, nas decisões impostas externa ou internamente que tanto afetam as nossas vidas, mas a cuja razão de ser não temos o direito de ter acesso.

Tem razão o presidente da República quando fala de um abalo à democracia. A caixa negra dos mercados terá dispositivos diversos dos da esfera política, mas, para lá da cortina, os interesses confundem-se e a resposta ao tropeção de cada crise é o aumento dos impostos sobre os rendimentos do trabalho e o abaixamento dos salários.

Falta vontade política, concertação intergovernamental, exigência de responsabilidade. Falta pôr a democracia a funcionar e esse grito de alerta tem de vir de fora do sistema: são as pessoas que podem dizer: basta!

Os offshore são o ponto exacerbado da caixa negra do sistema; digamos mesmo, o centro motor, ou coração que irriga o sangue que o alimenta: o dinheiro.

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Autor

miguel.carvalho@sc.ipp.pt

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