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0,2 pontos percentuais

Artigo de opinião da Presidente do Politécnico do Porto.


Apocalipticamente anunciado, relançado em ciclos sucessivos de ameaças ao sabor da complexa política europeia, o drama do castigo por défice excessivo em 2015 de Portugal e Espanha teve, como fecho do primeiro ato, o discurso morno e "compreensivo" de quem de longe nos governa. Foi uma decisão muito difícil, confessava o comissário Carlos Moedas, emocionado no final da reunião, mas "mostrou que somos uma comissão política", que "cumpre regras" e que também as pode "cancelar".

Mas, se a decisão final foi, e bem, política também o foi a longa exposição a que o país esteve sujeito, com as respetivas consequências internacionais e internas; e é, seguramente, corpo extenso da política a perplexidade incrédula com que uma opinião pública, agastada e distanciada do governo da EU, acompanhou o processo.

Há mensagens que o comum dos cidadãos não consegue compreender, muito menos quando embrulhadas em palavras redondas e dúbias, que encobrem mais do que revelam. As regras são da natureza da democracia. A sua formulação e aplicação pressupõem uma base de transparência, justiça e equidade. São os princípios e as ideias que os mobilizam e expressam, que legitimam a decisão política enquanto modelo de governo das pessoas e povos. Mas não foi assim! Num momento dificílimo da reedificação europeia, o ziguezague dos discursos e tendências expôs a fraqueza que enferma a UE, ao invés da força mobilizadora, de um projeto coeso em reconstrução. Não será mais estimulante premiar o cumprimento, com incentivos claros, do que punir, e assim debilitar, excluir?

Não sabemos ainda como se concretizarão na prática diária das nossas vidas as linhas do guião do segundo ato. Sabemos, sim, que entre outras medidas, pode estar em causa a atribuição de fundos comunitários cruciais para a frágil economia portuguesa.

Responsabilidade é uma palavra que implica uma interação biunívoca entre as partes: não um mero ajuste de contas entre credor-devedor.

Em 2003, Alejandro Iñárritu realizou um filme estranho e poético: 21 Gramas. Recuperava como eixo metafórico da trama uma teoria especulativa, defendida por um físico do início do século XX, que tentava demonstrar empiricamente a existência da alma humana, pela perda de peso do corpo (21 gramas), imediatamente após a morte.

0,2 pontos percentuais no défice de um pequeno país do Sul bastam para que a alma da Europa se revele, contraindo um tentáculo do corpo excêntrico.

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Autor

miguel.carvalho@sc.ipp.pt

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