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CiiL avalia impacto da suspensão das aulas na aprendizagem

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Estudo do Centro de Investigação e Intervenção na Leitura do P.PORTO revela impacto “preocupante” no nível de leitura das crianças do 1.º ano


Mais de um quarto das crianças do 2.º ano de escolaridade das escolas do Porto iniciou o novo ano letivo com um nível de leitura “muito pobre”. É a consequência de quase quatro meses de suspensão das aulas, devido à pandemia, conclui um estudo do Centro de Investigação e Intervenção na Leitura (CIIL), do Politécnico do Porto.

De acordo com este estudo, 27% dos alunos do 2.º ano revelaram um desempenho na leitura muito pobre neste início de ano letivo. “Estas crianças lêem tão devagarinho que não percebem aquilo que estão a ler”, explica Ana Sucena a investigadora do Politécnico do Porto e coordenadora do projeto. 

Ao longo do 1.º ano é expectável que as crianças aprendam a ler e no final do ano que sejam capazes de ler pequenos textos e extrair significado deles, compreender o enunciado de um problema de matemática, por exemplo. "Isso não está a acontecer", sublinha Ana Sucena. A realidade “é preocupante” e “incompatível com o que se espera ao início do 2.º ano de escolaridade”.

Os resultados revelam ainda que as crianças de contextos economicamente desfavorecidos são as mais penalizadas. Se entre os alunos do 2.º ano que provêm de contextos não desfavorecidos há 22% no nível de leitura “muito pobre”, entre as crianças de famílias carenciadas o valor é dez pontos percentuais superior.

As crianças com um nível de leitura “muito pobre” estão no que os investigadores designam por percentil dez — ou seja, têm um desempenho inferior ao que é apresentado por 90% da população estudada. No nível seguinte (percentil 25) estão mais 10% das crianças avaliadas. O seu nível de leitura foi classificado como “frágil”. A situação “não é tão dramática, mas continua a ficar aquém do que seria esperado nesta fase do percurso escolar", explica a investigadora.

O trabalho abrangeu 542 crianças do 2.º ano de escolaridade de 11 agrupamentos de escolas do Porto — cerca de um terço da população do concelho naquele nível de ensino. É um estudo de rastreio das competências de leitura que usa um teste previamente validado para a população portuguesa. A equipa já tinha usado essa ferramenta junto dos alunos das escolas do Porto, com quem vem trabalhando desde 2015, o que permite fazer comparações. Em anos anteriores, no mesmo território, com aulas presenciais, a soma das crianças com competências “muito pobres” e “frágeis” rondava os 25%. Este ano são 37%.

Ana Sucena Santos considera que os resultados agora encontrados ficam a dever-se à suspensão das aulas presenciais por força da pandemia de Covid-19: “Um trimestre sem aulas foi muito tempo.” Esta avaliação das competências de leitura dos alunos do 2.º ano de escolaridade nas escolas do Porto foi feita no arranque do novo lectivo. “Reflete a forma como encontrámos as crianças”, diz a coordenadora. O projeto inclui também a criação de uma estratégia de intervenção, que foi aplicada pelos professores nas primeiras cinco semanas do novo ano para recuperação de aprendizagens. Agora, a equipa de investigadores vai aplicar o mesmo estudo para perceber a evolução. Ana Sucena Santos prevê, porém, que os alunos mais frágeis vão precisar “de muito mais tempo de trabalho intensivo”.

O projeto CiiL resulta de uma parceria entre o Politécnico do Porto, a Câmara do Porto e o Ministério da Educação. Desde 2018 beneficia de financiamento europeu, nomeadamente através do Programa Operacional do NORTE 2020, na prioridade de investimento de combate ao insucesso escolar, no âmbito dos Planos Integrados e Inovadores de Combate ao Insucesso Escolar (PIICIE).

Autor

GCDI | P.PORTO

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